quinta-feira, setembro 06, 2007

A propósito dos transgénicos

Antes de mais quero sublinhar que considero que a liberdade é um valor fundamental e que a minha liberdade não é necessariamente limitadora da liberdade dos outros ou vice-versa.

É preocupante quando se discutem movimentos e pessoas (quais polícias políticas) que preconizam o debate sobre os produtos geneticamente transformados e se ponha para segundo ou terceiro plano o debate sobre a possibilidade destes se produzirem em Portugal, uma vez que já são comercializados.
É preocupante que se comercializem e consumam produtos modificados sem que haja qualquer referência à sua manipulação genética, seja nos rótulos ou na literatura das embalagens.
Nós estamos a consumir produtos que hoje se sabe poderem ter consequências maléficas para a nossa saúde e para o nosso bem-estar futuro. Vamos continuar a fazer como a avestruz ou vamos exigir ser informados do que realmente estamos a consumir?
Claro que se pode dizer que os estudos são inconclusivos, mas basta olhar para as nossas crianças e verificar que crescem rapidamente, tanto em altura como em largura e a vida sedentária não explica tudo. Basta que alguém vá passar uns tempos aos EUA para verificar como o seu peso aumentou largamente no regresso. Verifique-se que tipo de alimentação faz uma criança obesa e constata-se que os flocos (sem leite), as comidas rápidas, os gelados e as bolachas têm uma importância considerável.
Os transgénicos estão em todos os produtos mencionados.

O cultivo de sementes de produtos geneticamente transformados faz com que o agricultor fique totalmente dependente das sementes das companhias detentoras das patentes. Essas sementes só podem ser utilizadas pelos agricultores devidamente contratualizados e se por qualquer eventualidade o agricultor desistir de comprar as ditas sementes e elas continuarem a crescer na sua propriedade, porque ficaram no restolho, pode ser demandado judicialmente por uso indevido das sementes. Existem diversos casos de agricultores americanos com este tipo de problemas na justiça. Outros agricultores que nunca cultivaram OGM acabaram por os encontrar nas suas propriedades - simplesmente porque as abelhas não reconhecem as estremas - e também eles acabaram com o rabinho assente no mocho requeridos para engordarem os accionistas das empresas produtoras de OGM.
O que os defensores dos OGM não admitem é a possibilidade de no futuro a humanidade ficar dependente para a sua alimentação das espécies geneticamente modificadas e das companhias que as fornecerem. Esta ideia não é de todo absurda já que basta para isso que a alimentação humana seja o fruto das sementes geneticamente modificadas e patenteadas. Aquilo que deveria ser a solução do problema da fome no mundo transforma-se noutro problema muito maior, pois os agricultores só poderão produzir a partir daquelas sementes fornecidas em exclusividade pelas companhias.
As sementes geneticamente transformadas dão, por exemplo, origem a plantas resistentes aos insecticidas e quando se faz a polinização ela não fica limitada à propriedade onde inicialmente se fez a sementeira. As plantas transgénicas polinizam as plantas naturais e iniciam um processo de modificação das plantas circundantes. Isto poderá resultar numa maior fragilidade das plantas biológicas e na sua alteração genética com resultados de consequências imprevisíveis no futuro.
Lembro que - tal como Gualter Baptista, a face visível da oposição aos transgénicos - também foi ridicularizado o cientista que, pela primeira vez, chamou a atenção para o prião a que agora comummente se atribui a responsabilidade pela doença das vacas loucas. E tudo isto começou, na ânsia de maior lucro, com algo que se julgava um bem inofensivo e que agora tem os resultados que todos conhecemos.
Um dos princípios bíblicos é que se deixe nos campos sementes e frutos depois das colheitas para os mais pobres poderem tirar algum proveito disso. Mas agora os filósofos do dinheiro dizem: se te tirarem uma semente ou um fruto e o plantares terás de pagar em tribunal, pois eles são da exclusiva criação e comercialização da companhia X, Y ou Z.

2 comentários:

MARIA disse...

Bom post, Flávio!
A fazer reflectir, a fazer pensar...
Um beijinho
Maria

João Rato disse...

Estão próximos os tempos em que para plantar uma alface no quintal, serão necessárias licenças, formações adequadas e claro cumprir as normas da UE.
Paralelamente à cultura da porcaria que nos querem fazer engolir estão a ser criadas quintas de agricultura biológica cujos produtos, porque muito mais caros, só alguns poderão comer: provavelmente os mesmos que nos condenam ao exílio na Transgénia.
(Olha pelo menos a polémica dos putos já me serviu para saber o nome de mais um país!)