quinta-feira, julho 12, 2007

Chinezificação

«Portugal poderá ver, em 2008, saírem do país, em termos líquidos, cerca de nove mil milhões de euros de lucros e juros obtidos por estrangeiros», noticia o Público de hoje na Grande Rede. Na concorrência digital, o Sol, escreve-se que as reservas chinesas crescem 193,6 mil milhões de euros só no primeiro semestre deste ano.
A primeira notícia mostra o reverso das facilidades concedidas por sucessivos governos portugueses ao investimento estrangeiro em Portugal, governos esses que contratualmente não acautelaram o reinvestimento no país de parte dos lucros nele obtidos. Estas empresas vêm, trazem uns parcos milhões, criam umas centenas de empregos subsidiados pelo Estado com benefícios fiscais negados aos portugueses; produzem durante uns anitos, depois levam as mais valias de volta para casa, quando não fecham simplesmente a porta e vão procurar outros locais mais atractivos para embolsar. Neste sistema o PIB pode crescer mas o mesmo não acontece ao rendimento de quem trabalha ou dos portugueses em geral.
A China tem a maior reserva de divisas do mundo, trata a segunda notícia. É um valor inimaginável; é de tal ordem que todos temem o destino que lhe possa ser dado. Embora poucos até agora tenham ousado pensar alto – não se vá dar ideias ao inimigo potencial –, facilmente se adivinha que muito em breve esse capital entrará no mercado mundial através de aquisições e compra de favores junto dos poderes nacionais e empresariais. Considerando que toda esta riqueza não tem sido posta ao serviço dos cidadãos chineses, cuja grande maioria continua a viver na maior das pobrezas, esta perspectiva não é agradável para o futuro da humanidade em termos do desenvolvimento da sua qualidade de vida.
Portugal também não resistirá à ofensiva chinesa. A população portuguesa diminui, envelhece e empobrece. Acentua-se a diferença entre ricos e pobres. O investimento diminui ou cresce a um ritmo inferior ao dos outros países com que Portugal se quer comparar. Aos portugueses vai valendo, por agora, o baixo preço dos bens oriundos da China que mitigam a decadência progressiva das gentes mas que hipotecam o futuro da economia nacional já que, para a descapitalização do país, à exportação das mais-valias soma-se ainda a balança comercial negativa.
A chinezificação global vem aí!




(Imagem emprestada daqui)

4 comentários:

MARIA disse...

Oportuníssimo, Metralhinha.
Eles estão de facto em todo o lado.
Os poderes instituídos, a pretexto do "livre funcionamento do mercado", abstraem-se de qualquer tipo de regulamentação ou medida e olham para o fenómeno de " olhos em bico " ...
Bjs

Rui Salvador disse...

Esta é a grande verdade. Eu também não tenho grandes dúvidas que a Chinezificação global irá ser tentada. Veremos como os EUA vão lidar com esta situação.

Flávio Josefo disse...

Temos é de lidar nós mesmos com a situação. Os EUA podem intervir, mas a UE também o tem de fazer: ou vamo-nos nivelar pela quase escravidão, sem direitos e sem qualidade de vida ou mantemos os objectivos a que nos propusemos. A nós cabe a escolha.
Obrigado pela visita.

Rui Salvador disse...

Pois eu sei que o padrão civilizacional deveria ser o da UE, mas sem uma união política de facto e sem grande capacidade militar, andaremos sempre "ao sabor" dos EUA.