terça-feira, agosto 07, 2007

A Herança

Às vezes as minhas leituras vão um pouco além da Caras e do 24 Horas e foi assim que folheei a Time da próxima semana. Este número da revista é dedicado ao balanço dos 60 anos de independência da Índia e, como se esperaria, está voltado essencialmente para o presente, tentando também antever o futuro; um esforço que se sabe de antemão condenado ao fracasso, mas enfim... Não deixa, contudo (e isso é irresistível), de dar umas olhadelas para o passado, quanto mais não seja para mostrar erudição e apontar para um público-alvo mais vasto.
Deixando para Nuno Rogeiro a análise do que se diz sobre o presente e para o Paulo Cardoso o exame da futurologia, passo à história, essa espécie de literatura de segunda com que se entorpece na escola as mentes infantis e que é feita por coronéis reformados e outros inúteis.
Saltando rapidamente para a última página encontra-se nela um ensaio de William Dalrymple, autor de The Last Mughal, onde com elegância discorre sobre a história das relações da Índia com o Ocidente desde Alexandre Magno até ao presente. Nesse pequeno texto, a grande tese é que durante todo este tempo a Índia manteve a supremacia económica face ao Ocidente, excepção feita ao período de dominação inglesa a partir do século XVIII. Assim a presente ascensão da Índia não é um milagre mas é antes o regresso à posição que sempre ocupou no mundo.
O ressurgimento indiano não é obra do acaso, nem se ousa dizer que se deve ao esforço heróico dum qualquer indiano ou ao favorecimento especial de algum dos inúmeros deuses locais. O autor esclarece que para esta ressurreição houve um contributo dos ingleses e dos portugueses: os primeiros forneceram importantes instituições como a democracia e o estado de direito, os caminhos-de-ferro, o críquete e a língua inglesa; já os portugueses se limitaram a contribuir com a introdução do piripiri.


Está assim explicada a Índia actual. A herança portuguesa do piripiri destrói-lhes a sensibilidade oral, tornando a língua de Shakespeare ininteligível naquelas paragens; este legado afecta o juízo das gentes pondo-as a praticar o mais entediante dos jogos, depois do ténis e do golfe, e leva os ferroviários à pressa para trás dos caniçais, contribuindo assim para a sinistralidade épica nas vias que deviam conservar. É também o piripiri que dá o sabor especial à democracia indiana, tornando-a numa república dinástica em que o exercício de altos cargos do Estado é tão perigoso como andar de combóio.

2 comentários:

MARIA disse...

Caro Metralhinha,
Em boa hora fez essa leitura que nos permitiu aceder a esta reflexão sua sobre a India, da qual , apesar de tudo mal conhecemos a respectiva cultura, mas que é sempre fascinante sob qualquer ponto de vista, mesmo os que mais consentem crítica certeira, como a que aqui deixou.

João Rato disse...

A Índia para nós está descoberta e pronto! Falam Inglês, tudo bem!
É uma potência e-i-mergente tudo bem! O pior é o fado da pobreza, creio que ainda não semelhante à nossa quando as cotejo!
A Índia é grande mas Portugal...
e fico por aqui, será que ainda haverá algua coisa por lá para roubar?