terça-feira, outubro 02, 2007

Telhados de Vidro

O Reino Unido, país que tem querido dar lições de processo penal e investigação criminal a Portugal, está a braços com uma vergonha política e processual de todo o tamanho.
Depois de estupidamente Tony Blair ter enfiado o país no atoleiro do Iraque e de ter entregue a resolução da barafunda aos militares sem lhes dar os meios humanos e materiais necessários, quando as coisas começaram a descambar e já não havia maneira de ludibriar a opinião pública com mentiras que se desfaziam como bolas de sabão, houve a necessidade de encontrar bodes expiatórios para satisfazer as massas e alijar a culpa. Vai daí o aproveitar dos abusos cometidos sobre prisioneiros iraquianos para a catarse que se impunha e promover a reconciliação dos políticos com os seus eleitores. Só que, em vez do antigo dizimar da legião, optou-se por um método mais barato, mas não menos estúpido, escolhendo-se um dos oficiais mais respeitados e distintos para a imolação que deveria aplacar os deuses.
A sorte coube ao Cor. Jorge Mendonça, MBE, DSO, que assim é acusado e julgado em tribunal militar por incompetência e crimes de guerra, meses depois dum prisioneiro iraquiano ter sido morto por homens sob o seu comando. Não me vou alongar na história que pode ser lida aqui e aqui e pesquisada na Net.
Para além de todo o drama humano e do exemplo que nada de novo traz sobre o modo como os estados maltratam os seus soldados, esta história é modelar – embora sem constituir novidade histórica – no que ao comportamento dos políticos diz respeito.
No pântano que se tornou a matéria dos direitos humanos no Iraque, um militar teve a consciência de estar muito perto dos limites do admissível ou que estava mesmo ir além do que quereria e a sua consciência autorizava. Contudo, por imposição política superior – nível do poder a que os militares se sujeitam indiscutivelmente a bem da própria sociedade que visam defender – e de consciência tranquilizada pelos detentores do saber jurídico quanto à legitimidade dos actos de que é encarregado, acaba por agir o melhor que sabe, com os meios que dispõe, executando o mandato com diligência e a humanidade possível num ambiente infernal.
No fim, descobertos, os políticos assustam-se, mostram as suas qualidades morais e fazem aquilo em que são melhores do que todos os outros: sacodem a água do capote, lançando as culpas sobre outrem.
Estivesse o processo da menina britânica desaparecida a ser conduzido pelas autoridades portuguesas com a mesma qualidade com que as britânicas conduziram o processo do Cor. Mendonça e, neste momento, já teríamos sido invadidos por sermos considerados pela impressa e pelos políticos ilhéus como um estado falhado.

4 comentários:

Paulo Sempre disse...

Obrigado pela visita.
Os oficias, por serem fidalgos, não se lhes exigia que soubessem escrever ler e contar....
Agora tuso é diferente..
Abraço

Luís Bugalhão disse...

caro metralhinha,

já ontem tentei pôr o que abaixo segue como comentário. o Rui hoje viu que não estava lá nada (eu tb já havia visto q não estava), mas presumi que teria retirado o comentário por alguma razão, e assumi que o agradecimento pela visita seria para mim. o Rui disse que não seria assim, que eu é que meti os pés pelas mões e não comentei nada. aconselhou-me tb a pôr aqui a coisa, de modos que, cá vai...

"caro metralhinha,

não é comum aparecer alguém na 'sociedade civil' a defender militares.

mm não sendo o seu caso (e espero sinceramente que não seja) normalmente as coisas acontecem + ou - assim: há o caso maddie, há a PJ, há a Inglaterra, há os mídia ingleses e... a talhe de foice, há um coronel, bode expiatório, vítima das autoridades da 'old albion'.

cá está! agora agarrámos os gajos!
tanta conversa e afinal ainda são piores que nós a arranjar bodes expiatórios.

o que se passa neste caso é sintomático da nossa sociedadezinha, democrática, liberal e individualista de curto prazo. há que dar uns 'açoites' a alguém: à Kate; ou à PJ; ou ao COR Mendonça; ou ...

pois eu acho que a culpa é nossa!
os bifes só estão a fazer aquilo que as nossas FFAA fizeram demasiadas vezes, que as nossas polícias fizeram outro tanto, que a nossa democracia tem feito da mm maneira, que a sociedade ocidental tem feito ao longo da história. porque fazem falta COR's Mendonça's em todo o mundo: há que alimentar a necessidade de carne para canhão (e de gente para arcar com as culpas) que esta sociedade das multinacionais construiu com o nosso beneplácito.

a notícia é triste. todavia, mm lendo os artigos dos links, não estou por dentro do assunto. logo não vou falar de justiça ou injustiça. digo apenas que, como militar europeu (sou Sargento da Armada Portuguesa), entristece-me que um cidadão em uniforme, um camarada meu, que jurou defender a Rainha até ao limite da própria vida, tenha que arcar (e mais a sua família) com o estigma de torturador, e com as consequências materiais e legais que esse estigma acarreta.

mas a malta está farta de ver isso nos filmes não é? já não surpreende...

1 abraço e até um dia destes

02 Outubro, 2007 17:00"

João Rato disse...

Nada de surpreendente mas que é bom explicar.
Não nos esqueçamos que tudo isto começou com uma foto a quatro lá para os Açores. Essa fotografia está para o princípio desta guerra como a dos três de Yalta está para o fim da Outra. Uma e outra já são história, pena que a razão e os tempos se tenham invertido!
Abraço

Metralhinha disse...

Paulo,
A maior parte dos oficiais de hoje são doutores enquanto que a maior partes dos doutores de hoje são fidalgos.

Luís,
Os detentores do poder não olham, nem nunca olharam, aos meios para se manterem no poder. A carne para canhão é um desses meios; o atropelo de tudo e de todos para lá chegar é outro e o desfazer-se dos instrumentos que levaram ao poder ou que nalgum momento permitiram mantê-lo também faz parte do manual da sobrevivência política.
Não gosto do termo sociedade civil, prefiro o de sociedade, unicamente: civis ou militares, religiosos ou leigos, dirigentes ou dirigidos são formas mais ou menos transitórias de exercício da cidadania. E isso é que é importante. Não gosto de guerras do alecrim e da manjerona.

E por falar em guerras, João,
Mission accomplished!
Não há guerra alguma é tudo filmado em estúdios de Hollywood para consumo dos media... e a Terra é plana; a Lua é feita de queijo e há fadas madrinhas...