terça-feira, outubro 09, 2007

A Europa Morreu


A Europa morreu, só falta enterrá-la, o que está para breve.
A União Europeia foi um passo em frente para justificar a existência duma entidade supranacional que começava a não ter qualquer utilidade no mundo do comércio livre que se foi estabelecendo com o triunfo das doutrinas neo-liberais. Se a CEE era uma área de comércio livre onde as economias dos diferentes países que a compunham podiam competir livremente entre si ao mesmo tempo que se protegiam de todas as outras, já a UE não tem qualquer utilidade nessa área pois todo o mundo é um mercado livre, ou para lá caminha a passos largos. Surge assim a ideia da criação duma Europa social e política, algo anteriormente unicamente sonhado pelos fundadores desta ideia, como modo de manter unido todo um conjunto de países e nações historicamente inimigos na persecução coesa de objectivos comuns.


Ora aqui é que reside o busílis do problema: o que durante dois mil anos dividiu estes países e nações é o mesmo que os continua a separar. Uns querem sobrepor-se aos outros e os objectivos de uns não são necessariamente os de outros. No passado os conflitos de interesses acabavam em último caso, e frequentemente, dirimidos no campo de batalha. Hoje quer-se uma União Europeia para que a guerra não volte a ser o instrumento de resolução das discórdias.
Mas até para isso a União Europeia é inútil. No quadro das relações internacionais existem outros organismos multilaterais onde o conflito pode ser resolvido – organismos esses que, funcionando muito mal e tardiamente, têm, apesar de tudo, funcionado muito melhor que a União Europeia. É o caso das Nações Unidas e da OTAN.
O que hoje existe na Europa pode continuar a existir sem uma união formal.
Os subsídios podem continuar, tal como a livre circulação de pessoas e mercadorias. Tratados bilaterais ou multilaterais podem assegurar isso, sem que para tal seja necessário uma burocracia e espaços físicos onde se reúnam burocratas.
Uma Europa a várias velocidades será tudo menos uma união, antes pelo contrário, será o que sempre foi: cada um a tratar da sua vida.
Para que se quer uma constituição política se os estados não se entendem em matérias fiscais ou de política externa, privilegiando cada um os seus interesses tradicionais, pouco se importando com os consensos ou com as sensibilidades particulares de um dos seus membros mais fracos?
Que cidadania europeia se quer construir se se recusa a participação aos cidadãos no acto constituitivo dessa mesma cidadania?
Não se está perante as mesmas seculares políticas em que os príncipes punham e dispunham dos estados e nações sem se importarem com os indivíduos?
Não se está a pôr fim à própria democracia?

A Europa morreu e o tratado constitucional prepara-se para ser o seu coveiro.


5 comentários:

Vladimir disse...

como vai ser um funeral muito concorrido, vou já mandar reservar as flores...

João Rato disse...

Para que a tal Europa tivesse morrido era necessário que tivesse nascido. Existe a Europa, velho continente, das nações. Existe a Europa do mercado. Nunca existiu a europa dos Soares, dos Cavacos, dos Durões, dos nomes iguais dos outros lados, dos eurodeputados. Essa EU, nunca passou de um castelo de areia na mão desses miúdos, nunca foi mais que um livro de cheques nas mãos de alguns.

MARIA disse...

Metralhinha, note bem, se o pessoal que já se anicha nos quadros e apêndices das Instituições da UE tivesse que voltar todo para casa por extinção da mesma , só lhe restava a si abrigar-se no sotâo da Maria, depois desta sugestão ...
Ficariam furibundos consigo... já é muito o que foi criado.
E apesar de tudo, saldam-se algumas coisas positivas em particular na primeira fase da UE, quando ainda CEE.
Mas eu compreendo-o.
A UE surgiu por motivos determinados e perdeu-se nos motivos que nos dias de hoje dariam maior sentido à sua existência.
Muito bom post Metralhinha.
Um beijinho
Maria

Metralhinha disse...

Vladimir,
Palpita-me que o destino é a vala comum.


João,
A Ideia de Europa é tão antiga como a própria Europa, só que essa ideia não é unânime e hoje a Europa e cada vez mais o Sacro Império.


Maria,
O desemprego é o destino dos empregados desqualificados e mal pagos, agora a sorte deve estender-se a quem os pôs nessa situação.

Jorge Figueiredo disse...

Mas esses coveiros estão habituados a cavalgar todas as ondas... afinal de contas eles estão sempre de consciência tranquila...

A menos que só os nossos estupendos representantes considerem que têm essa limpeza...