sexta-feira, novembro 02, 2007

A falta de cultura histórica de comentadores da actualidade


Já se sabe que Pedro Arroja adora a sua Igreja; que venera o papa, considerando-o expoente máximo de cultura e sabedoria e só diz bem das actividades católicas. A maior parte das suas participações no Portugal Contemporâneo destinam-se a doutrinar os seus leitores, parecendo estar numa missão evangélica ou catequizadora. Portanto, não é de estranhar que sejam muito raras as minhas visitas ao seu espaço.
Todavia, soube através do Womenageatrois que um dos últimos textos de Pedro Arroja falava sobre os judeus e intitula-se Na massa do sangue. Um título assim prometia... sangue, por isso lá fui ver e não me desiludiu. Lá estava uma repescagem do velho libelo anti-semita: os judeus são tão maus que foram expulsos de tudo o que é lado; intrometem-se; fazem pressões e quando entram em qualquer lado tendem a dividir. Como contribuição adicional para este rol (dou-lhe o mérito de ser sua), subtilmente leva-nos a pensar que a canonização de 498 mortos da Guerra Civil Espanhola foi a causa da reunião de dirigentes judeus em Madrid para lembrarem os mortos da Inquisição espanhola.
E induz-nos de seguida a associar isso, de forma subtil porque não está escrito, com o facto de se ter levado à discussão da Assembleia Municipal de Lisboa a ideia de se mandar erigir um monumento em memória da intolerância religiosa, mas que tem por base o assassínio de milhares de judeus em 1506 em Lisboa.
Pedro Arroja chega a afirmar que foi na Península que os judeus foram melhor acolhidos ao longo da sua história! Esquece obviamente os massacres, os baptismos à força, a retirada das crianças judias aos seus pais para forçar a sua conversão, o exílio de muitas crianças para S. Tomé, a escravatura de quem negasse tornar-se cristão, e depois de se terem convertido a Inquisição e a mentalidade inquisitorial e pidesca de que ainda sofremos. Chama-se a isto um tratamento de príncipe.

A ignorância histórica não fica por aqui. Até nas datas o senhor professor Pedro Arroja erra, confundindo um qualquer acontecimento de 1521 com a data de expulsão de Portugal dos judeus que se deu em 1496 e 1497 (a lei é de 1496 com efeitos a partir de 1497).
O seu conhecimento bíblico também não é forte, pois se tudo está na massa do sangue, como diz, então isso também passou para o cristianismo. Jesus e os seus primeiros discípulos eram, ao que consta, judeus.
O interessante é pensar que os cristãos veneram (adoram[?]) várias pessoas que eram judeus e têm um livro que passa o tempo a falar de judeus. Irónico, não é?

7 comentários:

Metralhinha disse...

Também gosto de apreciar os exercícios retóricos de conciliação catolicismo com o liberalismo. Palpita-me que a seguir vai passar a tentar harmonizar Deus com o Diabo.

cjt disse...

Isto, meu caro, não é ignorância histórica. É antes um atestado de ignorância quem o possa ler e ser influenciado por o que ele escreve.
E perigoso, sabe?
É que, na penumbra da ridicularização do raio do post que esse anti-semita, racista, xenófono e homofóbico pseudo-neo-liberal-anarquista e mais epítetos que a audiência se lembre - claro que tudo isto para além do simples parvalhão... - , dizia eu que nessa penumbra espreita o que de melhor esses seres desprezíveis podem obter: a celeuma, a publicidade.
Mas... é necessário discutir, e rebater e, por aqui, isso faz-se. Parabéns!

Abraço,
CJT

Flávio Josefo disse...

Tem toda a razão, mas o pior de tudo é que há pessoas que pensam como o Arroja e não o dizem por pudor.
Obrigado pela visita CJT, volte sempre.

Anónimo disse...

o arroja tem razão quando diz que foi na península ibérica que os judeus foram mais tolerados só que esqueceu-se de referir que essa tolerância aconteceu antes da chamada inquisição espanhola, antes do torquemada ,antes de isabel e fernando. não há relato de perseguições a judeus na península nas inquisições medievais.
leiam o antonio josé saraiva no seu "inquisição e cristãos-novos".

Flávio Josefo disse...

Foi uma tolerância tão grande que até há bem pouco tempo, quem quisesse ter um cargo ou ofício público tinha de justificar não ter sangue de judeu ou mouro na sua genealogia!
Foi uma tolerância tão grande que levou milhares de famílias a não terem fontes de rendimento porque eram proibidos de exercer os seus ofícios!
Foi uma tolerância tão grande que mesmo aqueles que juravam e acreditavam em Jesus como messias eram etiquetados como cristãos-novos ao longo de gerações, sendo sempre alvo de desconfiança!
Realmente as perseguições medievais não tiveram o carácter oficial que tiveram as da Idade Moderna, mas o medo da diferença, as invejas, os problemas sociais resultaram também em movimentações e perseguições esporádicas por toda a Península.

Anónimo disse...

Acabadas as perseguições, eu deixo.

José Gonçalves Cravinho disse...

Após ler o texto e os comentários,
só me resta dizer que afinal a culpa de tudo isto foi e é da maldita biblico-judaico-cristã Religião que ainda hoje impede que haja Paz na Palestina.
A Religião maometana também foi bebida no primitivo cristianismo.
O Maomé também disse que recebeu de Deus o Corão,por intermédio dum Anjo,tal como o Moisés que recebeu directamente de Deus,as Tábuas da Lei ou seja os Dez Mandamentos dos biblico-judaico-cristãos.Só haverá Paz na Palestina quando não houver
fanáticos sionistas e fanáticos maometanos a decidir a Política.A Palestina poderia ser uma Rèpública Federada como a Suíça,sem Exército mas apenas Polícia,com dois Cantões (árabes
e hebreus)e Jerusalém,uma cidade
internacional e Sede da ONU.Mas
infelizmente,o fanatismo religioso e o racismo (os judeus consideram-se o Povo Eleito de Deus e a Palestina a Terra da Promissão)é que impedem que haja Paz na Palestina e até mesmo no Médio Oriente.